Coletivismo não é fraternidade e individualismo não é egoísmo

Uma das grandes dificuldades no processo de difusão do pensamento liberal é a desmistificação de alguns termos que até então parecem favorecer os socialistas. Dois desses termos, muito citados na literatura liberal, é o “individualismo” e o “coletivismo”. O primeiro nós costumamos ouvir quando somos crianças: “Não podemos ser individualistas, temos que dividir.”, o mundo nos diz. E com toda razão, a solidariedade e a partilha são parte de nossa cultura e consideramos algo benéfico.

Acontece que, quando falamos de Ciência Política, o “individualismo” não significa esta noção de egoísmo e mesquinharia, e sim a liberdade de determinada pessoa em agir da maneira que quiser, contanto que não fira as leis que regem a sociedade (e sim, as leis são necessárias). No modelo “individualista”, o Estado é formado em torno da proteção do indivíduo, e não de grupos, isto garante que a autonomia de cada pessoa seja respeitada, protegendo, em especial, as minorias, aquelas que a esquerda costuma defender sempre mas não admite que são as mais perseguidas quando seus regimes socialistas se encaminham para realidades autoritárias.

O segundo termo, “coletivismo”, soa como algo benevolente, ligado à fraternidade entre os homens: “Pensemos no coletivo!”, dizem. E não há nada demais nisso, contanto que se atue coletivamente de forma voluntária, e não se utilize a força coercitiva do Estado para criar estruturas de proteção a determinados grupos (o que acontece muito no Brasil). Um modelo de Estado coletivista não pode conviver com um modelo individualista, quanto mais coletivista um Estado, mais ele compromete a autonomia individual e força as pessoas a se sujeitarem a um suposto “bem comum”, e foi exatamente isto que aconteceu com as ideologias colocadas em prática ao longo do século XX. No começo, parecia uma salvação coletiva rumo ao paraíso, depois, logo se transformou em um inferno administrado por uma elite despótica.

Há de se destacar que uma pessoa que defende um regime político “individualista” não necessariamente é alguém que pensa apenas em si mesma, pelo contrário, talvez esta pessoa esteja bem inserida socialmente e coletivamente, mas por uma convicção ética prefere um modelo que proteja as “minorias” e até ela mesma (caso um dia ela se torne alguém “diferente” do “todo”). Assim como uma pessoa “coletivista” talvez não seja tão fraternal como pode parecer. Muitos coletivistas – e aqui destaco os socialistas – são daqueles que endossam uma ideologia política que em suas visões poderia “salvar” a humanidade, mas não têm a coragem de mover um músculo para ajudar alguém mais próximo, como um familiar ou um vizinho que está logo ao lado. Em outras palavras, são aquelas pessoas que “amam” a humanidade mas não se importam muito com o ser-humano.

Estados individualistas formam estruturas sociais voluntaristas, enquanto Estados coletivistas formam estruturas sociais coercitivas. Há uma grande tendência em nos deixarmos levar por promessas de regimes coletivistas, pois costumam prometer “fins” compensadores, entretanto devemos ter cuidado com estas promessas, afinal um grande Estado capaz de “fazer o bem” é um grande Estado capaz de fazer o mal. Portanto, por via das dúvidas, talvez seja melhor manter este Estado contido, evitando assim processos de tiranização. Isto é Ciência Política clássica, coisas que fundaram nossa civilização, mas parece que há a necessidade de sempre relembrarmos, principalmente em um país em que seus cidadãos cedem tanto poder aos governantes, abrindo mão da própria liberdade em troca de promessas de direitos e uma suposta “segurança econômica”.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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