Ser apolítico também é um posicionamento político

Nos últimos anos, com o cenário político brasileiro se tornando cada dia mais acalorado, foi comum escutar muitos lados e visões sobre assuntos políticos. Um desses assuntos foi a tentativa geral de definir melhor o que seria “esquerda” e o que seria “direita”, algo que, ao meu ver, foi muito positivo, considerando o estágio de maturação da democracia brasileira.

Neste cenário, uma crítica muito comum da “esquerda” sobre a “direita” é que pessoas mais à “direita” muito frequentemente não estão “conscientes” do processo histórico e do contexto social no qual elas mesmas estão inseridas. Em outras palavras, o “esquerdista” lê um pouco de Marx e um pouco de outros autores “progressistas” e começa a achar que descobriu a “falha da matrix”, como se todo mundo que não tivesse tido acesso às preciosas “informações” que ele teve conhecimento não passasse de pobres alienados. Se você é de “direita”, então você não tem a “sensibilidade” que só o “humanista ungido de esquerda tem”. Esta é uma das origens da soberba intelectual entre os “progressistas”, soberba esta que Thomas Sowell disseca impiedosamente em sua obra “Os Intelectuais e a Sociedade” (vale à pena ler este livro publicado no Brasil pela editora É Realizações).

É até compreensível o porquê deles pensarem assim. Pessoas mais “direitistas” costumam alimentar certo ceticismo em relação à política e não se atrair muito por ideologias, o que acaba dando a impressão de que são “apolíticas”, enquanto pessoas “esquerdistas” costumam ser mais interessadas em movimentos sociais, ideais abstratos, palavras de ordem e na própria política institucional em si. Uma grande dificuldade que tive como estudante liberal em uma universidade brasileira foi justamente tentar convencer pessoas que eu percebia serem liberais a contribuírem de alguma forma com a causa da liberdade no campus. Estudantes das áreas de gestão, engenharias, tecnologia, medicina, entre outras, costumam ser muito práticos e não se interessarem muito por política. Em contrapartida, estudantes de cursos de humanas são altamente engajados em movimentações políticas. Resultado? Quando falamos de “ocupações de espaços”, a direita leva uma surra nas universidades. Isso se dá porque a esquerda tem ideias melhores ou um maior número de adeptos? Não. Isso se dá porque liberais e conservadores não gostam de política, deixando o caminho livre para que haja um domínio avassalador da esquerda.

Mas vindo ao ponto central deste texto, o fato de serem mais “apolíticos” faz com que os direitistas sejam pessoas alienadas e sem consciência? Eis onde está um grande equívoco da esquerda. A característica fundamental da “direita”, segundo Russell Kirk, é a negação da ideologia. Conservadores não se nutrem de um determinado sistema de ideias, e sim de fontes de orientação históricas, como os costumes, as convenções, a religião, a sabedoria dos mais velhos, as tradições etc. Ou seja, se você se referir negativamente a uma pessoa de “direita” como alguém “sem ideologia”, saiba que, na verdade, você está a elogiando, pois seu posicionamento político é justamente ser contra ideologias. Entendendo ideologias como sistemas artificiais de ideias formuladas para se chegar a um determinado fim, e não para entender a estrutura da realidade (que é extremamente complexa).

Se você é de esquerda, tem uma ideologia, e acha que um direitista é “alienado”, saiba que, se este direitista conhecer as ideias que defende, talvez ele lhe considere o “alienado” da história, justamente por você ser muito “letrado” em ideias que fogem do mundo real. Esquerdistas acham que se as pessoas conhecerem suas belas ideias, o mundo será um lugar melhor, mas o que vemos é que, com muita frequência, pessoas apolíticas são bastante engajadas cuidando de suas famílias, servindo suas comunidades, trabalhando, estudando e concentrando suas energias, de forma geral, na manutenção da ordem em seus pequenos raios de atuação. Enquanto isso, os “progressistas” falam muito e fazem pouco. Costumam ser pessoas boas e idealistas, mas ficam muito concentradas no campo das ideias, desejando um mundo melhor pela via política, e não por seus empreendimentos individuais.

O que é melhor? Uma pessoa “apolítica” que tenta ter uma vida em ordem ou uma pessoa “politizada” com uma vida caótica querendo salvar o mundo? Esta é uma bifurcação que, ao ser pensada, possivelmente lhe definirá como alguém de “esquerda” ou “direita”. Você já percebeu como esquerdistas costumam ser adversos à caridade e ao trabalho voluntário? Esta característica nos ajuda a enxergar melhor o cenário. Grupos que praticam a caridade – geralmente ligados a igrejas, centros espíritas etc – costumam ser compostos por pessoas que não são muito “politizadas”, mas têm um grande coração e tentam melhorar suas comunidades, enquanto os “politizados” declaram para todos os lados o “amor” que sentem pela humanidade mas não movem um músculo para realmente ajudar alguém necessitado. Fatalmente o segundo grupo alcançará o poder político (de tanto tentar) enquanto o primeiro grupo continuará servindo a comunidade sem saber que, aos poucos, pode estar sob o controle do segundo grupo.

Se você for uma pessoa “prática” que quer liberdade para exercer seus valores e ampliar suas liberdades, eu entendo o fato de você não gostar muito de política, mas tente reavaliar a situação, talvez não seja interessante para a sua vida ficar à mercê de pessoas que falam muito e fazem pouco, afinal, se você não se envolver, provavelmente elas estarão no poder e, uma vez no poder, elas podem lhe atrapalhar muito. Mas se você for do tipo “politizado” que acha que detém a “verdade iluminada” enquanto os outros não passam de “brinquedinhos da burguesia”, lembre-se que, possivelmente, você pode ser o “brinquedinho”, e o cara sem ideologia ao lado é justamente o indivíduo livre que você dificilmente se tornará. Ser “apolítico” é um posicionamento político. Um posicionamento político que diz não às ideologias. Esta é uma das ideias centrais de Russell Kirk, um dos maiores escritores políticos do Século XX, considere conhecer sua obra.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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