Como a coletividade pode ser inimiga da liberdade

Nós liberais, e muitos libertários, conseguimos com certa facilidade observar as distorções que o Estado gera na sociedade e todas as suas formas de opressão. Contudo, quando entramos em questões mais espinhosas, por receio, por vezes medo de sermos associados ao tipo de esquerda que temos no Brasil, evitamos entrar em determinados assuntos, digamos, polêmicos para o seio popular. Geralmente, esses assuntos entram em questões que com frequência são relacionadas ao molde da nossa sociedade e nos leva a refletir sobre princípios que costumam ser tabu para o nosso corpo social. Mas ser liberal é, em muitos casos, um caminho tortuoso, que nos faz trazer a luz da reflexão sob diversas narrativas, e uma delas é a cultura.

Nesse contexto, inicio o texto com uma crítica saudável à omissão que nós liberais brasileiros criamos ao longo do tempo em falarmos sobre temas da sociedade, baseados em intervencionismos não somente estatais, mas fundamentalmente culturais , pois sim, a cultura pode ser uma forma de intervenção coletiva que muitas vezes é fator originário ou estimulador de políticas igualmente intervencionistas do Estado.

Para entendermos essa problemática é necessária uma abordagem histórica, para percebermos os perigos que uma cultura não pautada na liberdade pode trazer para o nosso corpo social. Nesse aspecto, viajemos para além do Brasil, para o início das grandes nevegações, para percebermos como foi a cultura, baseada em valores católicos, um fator legitimador da perseguição de negros e a adoção de práticas escravocratas. Curioso salientarmos que os católicos tiveram primazia em difundir esses valores mais fortemente que os protestantes que, ao invés de minarem as liberdades com base em preceitos eugenísticos – de uma suposta raça branca superior – praticaram valores de liberdade. Basta olharmos que países de origem britânica prosperaram sem praticar o tráfego negreiro de maneira tão sistemática, como países como Espanha ou Portugal.

Voando um pouco mais ao futuro, observamos que foi a cultura o principal impedimento para que mulheres tivessem acesso à política, e foi neste cenário que pensadoras como Mary Wollstonecraft trouxeram à tona o movimento sufragista, mais conhecido como a “primeira onda” feminista.

Podemos observar a partir desses dois exemplos que a cultura foi um fator essencial para legitimar a opressão contra determinados grupos e, portanto, a cultura pode gerar um despotismo cultural, como diria John Stuart Mill. Esse despotismo cultural levou à supressão de valores fundamentais para pequenos grupos de indivíduos, como a liberdade de associação e desassociação, que foi por muito tempo um tabu para mulheres dos mais diversos países ocidentais. E o mais importante: foi um instrumento indispensável de legitimação para garantir mecanismos de censura social. A censura é um mecanismo vil que pode advir tanto do Estado como da própria sociedade, e que entra em total conflito com a liberdade de expressão.

Whilhelm von Humboldt já alertava no século XVIII que a prosperidade de uma nação somente era garantida quando havia uma variedade de ideias, ou seja, baseada numa pluralidade de pensamentos. A cultura enquanto mecanismo sem limites éticos que a prendam, sob uma ótica liberal, acaba por reprimir diversas vezes, utilizando para isso seus métodos coercitivos. O primeiro destes é a instrumentalização do pensamento, que a cultura impede, por meio de gestos simples, a liberdade de pensar e falar, gerando o popular “efeito manada”, onde pessoas começam a repetir o conhecimento sem um processo reflexivo, o que pode gerar problemas sérios e danosos ao pensamento do bem comum e, em caso de divergências, a truculência dos indivíduos pode ser letal a quem os contrarie.

Um bom exemplo disso foi a mácula que o nazismo deixou na civilização germânica durante o pós-guerra: mesmo depois de todas as atrocidades que vieram à tona, devido ao processo de culturalização e, portanto, de normalização, demorou-se anos até que os alemães deixassem de ver o governo nazista como algo positivo e passassem a promover uma cultura em prol da liberdade.

Um outro problema da força cultural é ela criar mecanismos coercitivos via Estado, e nesse caso há exemplos bem comuns, quando em Estados democráticos marcados pela forte participação popular, países como França ou Grã-Bretanha até não muito tempo atrás controlavam, via censura, em nome da moral, e com apoio popular, determinadas propagandas por serem “impróprias”.

Então a pergunta que fazemos após essas afirmações: a cultura e a formação de grupos deverá ser sempre negativa e portanto será sempre limitada? A resposta vai além de um simples sim ou não. O que percebo é, a cultura é a manifestação de diversos grupos e portanto ela deve ser sim preservada, pois é a partir dela que utilizamos os nortes que garantem uma vida em sociedade. Sem a cultura, sociedades complexas jamais existiriam, e basta lermos o mais básicos dos livros da pré-história para vermos que os grandes divisores de águas não foram só revoluções tecnológicas, mas de evolução cultural. Reafirmando a importância da cultura como mecanismos que garantem coesão e trabalho em grupo.

A sociedade em si, foi limitada, e agora de uma maneira verdadeiramente positiva, pela própria cultura. Nesse caso, podemos ver como uma cultura moldada em valores protestantes, crescida sob a égide do respeito à propriedade, do respeito à individualidade, e de alto grau de responsabilidade que indivíduos possuem, que garantiu, nas palavras de Nima Sanandaji, o sucesso dos países Escandinavos.

O que percebemos é que os países ou regiões onde se implantaram valores liberais foram, e são, as sociedades que mais prosperaram em termos de respeito às liberdades individuais, o que lhes conferiu e garantiu um conjunto de benesses que positivam até hoje o conforto e a propriedade privada de seus cidadãos. Portanto o limite que a cultura – assim como o Estado – tem, sempre será as liberdades individuais. Quando esses valores são suprimidos, reina-se a perseguição contra grupos minoritários ou com menos poder na sociedade em questão, como aconteceu até não muito tempo atrás com LGBTs, por exemplo.

Contudo existe uma cultura mais perniciosa, mais difícil de compenetrar e que vem ganhando mais forças nos momentos atuais dos debates políticos. É a cultura da elite intelectual, e nesse caso, “elite” é utilizado claramente de forma pejorativa, devido ao caráter sincretista que muitos intelectuais catedráticos possuem nas reflexões sociais. Essa cultura gera mecanismos mais bem elaborados, pois os envolvidos tem um certo grau de conhecimento, mas tem uma visão distorcida, justamente por uma leitura limitada da realidade, fruto de um processo de doutrinação, oriundo de uma limitação do conhecimento estimulado, inclusive pelos meios acadêmicos, promovendo a leitura e o estudo de poucas formas de pensamento, muitas vezes sinônimas entre si, gerando antagonismos violentos frente a outras linhas de ideias.

Para não esquecermos foi esse o contexto da pós segunda guerra mundial e foi baseado nesse centralismo intelectual que operou a URSS, mesmo pós Stalin, o qual comunistas e socialistas utilizaram como o único cruel déspota que desvirtuou a “virgindade socialista”. Mas negam os fatos acontecidos na Hungria e na Tchecoslováquia, sob o mandado de Nikita Kruschev, respectivamente em 1956 e 1968. Em ambos, a sociedade caminhava, em certo nível, para algo próximo de uma liberdade cultural, pelo menos algo mais livre do que operava até então sob o controle central comunista, onde, principalmente tchecos, tiveram direitos a uma imprensa crítica e livre, a fomentar ideias que, nas palavras dos “comunistas conservadores” da época, disseminavam os inaceitáveis pensamentos burgueses do ocidente. E o mais interessante: intelectuais, como Sartre, mesmo sabendo dessa barbaridade, continuavam a justificar e até a legitimar tais atos, como muito bem pondera o historiador britânico Tony Judit.

De maneira mais simplista, tais intelectuais da esquerda utilizam esses mesmos mecanismos que geram, de maneira menor, aspectos que minam as liberdades de expressão e procuram pôr fim à sociedade plural, que foi um dos pilares a garantir a instituição da propriedade privada nas nações desenvolvidas.


JÚLIO TEIXEIRA
Articulista
Graduado em Engenharia Civil pela Universidade de Fortaleza
Coordenador Local do Students for Liberty

Liberal Clásssico convicto


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