“Essa página é liberal ou libertária?” Entenda o que pensa a Nordeste Livre

Desde que a Nordeste Livre iniciou seus trabalhos de difusão da liberdade nas redes sociais, em especial no Facebook, onde apresentou notório crescimento ao atingir mais de 120 mil seguidores, não são raros os pedidos para que expliquemos nossas ideias, havendo um descontentamento com a falta de definições. Liberais, libertários e conservadores vêm e vão de nossas redes, ora satisfeitos com alguma publicação que esteja de acordo com suas crenças, ora insatisfeitos por serem contrariados.

Pois bem, não temos nenhum problema em esclarecer as coisas, apesar de não ser uma tarefa simples. A começar, nossos leitores devem entender que não compactuamos com a visão simplista de se enquadrar uma determinada organização em uma classificação estrita. Consideramos tal prática um vício de nossos tempos, uma espécie de neotribalismo que vem tomando conta do debate público. Para exemplificar de forma mais clara, vamos trazer o pensamento de um pensador conservador que apreciamos: o norte-americano Russell Kirk.

Kirk sustenta que a ideologia – no sentido amplo da palavra – é um fator cognitivo limitante para se entender a realidade. Ela não se baseia no mundo concreto, mas em um sistema de ideias que tenta com muito esforço se aplicar à complexidade dos fatos cotidianos. A insistência em se usar os “ismos” é um dos grande males da modernidade e, portanto, Kirk sugere que o conservadorismo é justamente a oposição ao ideologismo. Socialismo, fascismo, comunismo, liberalismo, libertarianismo, todos se constituem como o estabelecimento de condutas a priori. A própria ideia de conservadorismo como ideologia, para Kirk, é um erro grave entre os próprios conservadores.

A ideologia é como um par de óculos com lentes coloridas, podendo o indivíduo escolher a cor que quiser. Alguns escolhem lentes vermelhas, outros verdes, outras amarelas, e não importa o quão difícil de entender seja o evento que se descortina frente aos seus olhos, ele sempre será visto através da mesma lente. Aquele que se opõe às ideologias prefere não usar os óculos, apreciando o objeto de observação com maior clareza e humildade, pronto para ser surpreendido por aquilo que não entende.

Um excelente exemplo para ilustrar o que Kirk quer dizer é observando o acontecimento internacional mais marcante deste começo de 2020: o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, promovido pelo governo dos EUA. Após o fato ter se concretizado e a notícia ter corrido por todos os cantos do globo, já era perceptível a forma leviana com que muitos se dispunham a discorrer sobre o evento.

Um dos grupos que mais nos chamam a atenção quando algo desta envergadura acontece é a esquerda de forma geral, mas vamos tratar aqui especialmente da esquerda brasileira, pois é a que mais se destaca pela proximidade e por seu teor anti-americano. Dê uma olhada nas opiniões de todos os comunicadores e articulistas deste grupo, você vai perceber como são ideias homogêneas, mesmo que se refiram a um contexto extremamente complexo (como o Oriente Médio). Todas as opiniões sobre o assunto gravitam em torno da ideia de que os EUA estão errados e o ataque deve ser condenado. Simples assim.

Agora repare a opinião desse mesmo grupo sobre outros eventos envolvendo ataques americanos ou mesmo ataques terroristas pela Europa, a regra é sempre a mesma: o que os americanos fizerem, condene. O que os israelenses fizerem, condene. O que os extremistas islâmicos fizerem, justifique (ou pelo menos suavize). O padrão é sempre o mesmo. É como uma playlist com a mesma música tocando repetidamente por tempo indeterminado.

O mesmo acontece durante o atual governo brasileiro de Jair Bolsonaro: quando Bolsonaro acertar, reprove, quando Bolsonaro errar, comemore. Isto, meus amigos, é a leitura da realidade através das lentes da ideologia. Não importa o que acontecer ou o quão complexo o acontecimento for, simplesmente reproduza as regras predeterminadas de interpretação dos fatos. Assumindo tal postura cognitiva, torna-se natural que haja um embotamento intelectual por parte daqueles que buscam se aproximar da verdade. Em outras palavras: tudo se torna uma briga de “torcida de futebol”, a sua visão contra a minha visão, e quem gritar mais alto vence.

Para aqueles leitores que têm o interesse em conhecer melhor este assunto, recomendamos a leitura da obra A Política da Prudência, onde Kirk desenvolve melhor suas visões sobre o conceito de ideologia. Uma vez apresentadas nossas ideias sobre o que é ideologia, podemos passar para a fase principal, dizer o que pensamos. Lembramos que utilizamos o termo “orientações ideológicas” em nosso título mais por razões didáticas, uma vez que tal expressão já foi amplamente difundida em nossos tempos, facilitando a compreensão do assunto tratado por aqueles que acessam o artigo.

E então, qual a visão da Nordeste Livre?

Respondemos: não temos uma palavra estrita para definir o que pensamos, muito embora gravitemos em torno do que se costumou ser chamado de liberalismo clássico, libertarianismo e conservadorismo. Sim, todos esses três, e tentaremos explicar.

Em termos de Economia, aproximamo-nos muito das ideias defendidas pelos libertários, em especial os economistas da Escola Austríaca, como Hayek, Mises, e mesmo Hoppe e Rothbard (tendo ressalvas sobre os dois últimos em vários pontos). Isto não nos impede de apreciarmos muitas ideias de liberais mais moderados, como Milton Friedman ou mesmo o brasileiro Roberto Campos. Como vivemos em um país muito estatista, acreditamos que a difusão do pensamento libertário é de grande valia para equilibrar a balança, abrindo os olhos dos brasileiros para visões que estão além do “Estado como provedor de progresso e desenvolvimento”. As ideias libertárias na economia têm o potencial de fazer com que nossos cidadãos entendam os grande ganhos que nosso país poderia ter se desse mais liberdade para que a iniciativa privada prosperasse.

Outro fator que nos aproxima do libertarianismo econômico é a rápida velocidade de mudança tecnológica que temos testemunhado nos últimos anos, com mercados sendo revolucionados pela ágil troca de informações proporcionada pela internet. Consideramos que o progresso da livre iniciativa se tornou tão intenso que o Estado, mais do que nunca, é um empecilho para que as vantagens de tal processo cheguem aos mais necessitados. Nossas instituições políticas são lentas e não conseguem se adequar às evoluções exponenciais dos mercados, que não podem ficar esperando por “regulações” que exigem meses ou até anos de debate para que se decida como devem operar. O libertarianismo econômico vem se tornando o arcabouço de ideias mais próximo do que está acontecendo neste Século XXI.

Saindo da Economia e entrando na esfera Política sobre como o Estado deve se organizar e gerir suas funções, aproximamo-nos do liberalismo clássico, considerando a tripartição de poderes em Montesquieu um dos sistemas mais sofisticados desenvolvidos por nossa civilização em termos de controle do poder e tudo que envolve sua acumulação. Este liberalismo clássico está presente em muitas partes de nossa Constituição, apesar de ser consideravelmente ofuscado pelo excesso de funções atribuídas ao Estado no campo social, gerando uma tensão entre modelo liberal e modelo social-democrata. Curioso lembrar que muitos juristas negam esta tensão, inclinados a reconhecer a Constituição de 1988 como um exemplo para o restante da comunidade internacional. Não pensamos assim. A CF88 tem suas virtudes, mas a maior parte de seu texto é repleto de visões idealistas que preferem fingir que alguns aspectos duros da realidade não existem, sendo um dos principais deles a escassez dos recursos (algo muito conhecido entre economistas). Nossa carta magna é por demais rousseauniana e intervencionista, enquanto nós, como céticos, preferiríamos algo mais contido e estruturado não para exaltar o poder, mas para contê-lo.

Outra característica importante do Estado liberal clássico é o princípio da subsidiariedade, que entendemos como o poder partindo do menor fragmento da sociedade, que é o indivíduo. Do indivíduo para a família, da família para a comunidade, da comunidade para o bairro, depois município, estado e união. De todas as esferas do poder, a que deve ter menos recursos é a união, e a que deve ter mais recursos é a individual. O poder deve estar próximo das pessoas, somos estritamente contrários ao acúmulo de poder em uma entidade central, como da forma que acontece em ditaduras e em federações de “fachada” como a brasileira. Levamos a sério a frase “mais Brasil e menos Brasília”, e trabalhamos sem cessar para que nossa população entenda a importância de impedir o crescimento do governo central. As cartas dos anti-federalistas americanos são documentos valiosos para se conhecer mais sobre esta visão.

A democracia representativa é por nós tolerada, mas com certo esforço, pois como Hans-Hermann Hoppe explica em sua Democracia: O Deus que Falhou, ela tende à ascensão dos piores, ao populismo, à demagogia, à captura de vantagens e privilégios e ao endividamento geral da nação. Por isso a necessidade de se reduzir o poder do Estado, para que o indivíduo tenha menos chances de ficar exposto a esta gigantesca máquina de coerção que pode crescer indefinidamente. Algo que no curto ou médio prazo poderia amenizar este problema seria o fim do voto obrigatório, ou mesmo a exigência de determinados atributos para que o cidadão possa participar dos processos eleitorais, como ter 25 anos completos, ter segundo grau completo, ou mesmo realizar uma prova simples sobre conhecimentos gerais acerca do país. Sabemos que este tema é complexo, mas provavelmente entraríamos no debate advogando processos eleitorais mais restritivos (por uma questão de bom senso, e não de elitismo).

Faz-se importante salientar que tudo que aqui expomos são ideias pontuais sobre determinados temas, apenas para que nosso leitor possa ter uma luz sobre nossas visões. Sabemos que cada um dos temas mencionados podem ser muito aprofundados, debatidos e desenvolvidos, e é isto que esperamos fazer ao longo do tempo. Todavia, já é possível visualizar por onde transitamos, e se pudéssemos resumir, poderíamos dizer que somos libertários na Economia e liberais na Política.

Mas onde está o tal do “conservadorismo”?

Nós somos conservadores no que se refere à postura que mantemos frente à realidade. Entendemos que o mundo é um lugar amplo e complexo, e que é preciso cuidado ao se colocar em prática certas alterações, por mais bem-intencionadas que sejam. Ao lidarmos com a humanidade, entendemos que o homem não é um ser qualquer, como um número ou algo que pode ser moldado deliberadamente. Estamos resguardados pela prudência tão mencionada por Aristóteles e São Tomás de Aquino. Fugimos como podemos da “ânsia simplificadora” de nossos contemporâneos, desconfiamos quando alguém propõe soluções que parecem fáceis frente a problemas que testam nossa compreensão. É por este motivo que temos muitas ressalvas quanto ao libertarianismo, mesmo que apreciando muitas de suas visões. Em outras palavras: mantemos a pequeneza frente à imensidão do mundo e da existência humana, o que naturalmente nos afasta das ideologias que prometem transformar tudo para melhor repentinamente.

Temos plena consciência de que este texto não agradou a todos, pois cada leitor deve ter suas demandas sobre determinados temas, como drogas, papel das mulheres, política externa, imigração, secessão etc. Mas tais assuntos podem ser trabalhados em outros artigos. Por aqui iremos nos limitar a fornecer as diretrizes para que os leitores compreendam um pouco nossos pontos de partida, para que também possam entender que uma palavra não é suficiente para definir tudo que pensamos. A realidade é uma mata fechada cheia de surpresas e mistérios, portanto desconfie quando um ideólogo aparecer com respostas para tudo.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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