O espetáculo de Roberto Alvim nos mostra, mais uma vez, porque a cultura nunca deveria ter sido assunto de Estado

O espetáculo nacionalista promovido pelo ex-Secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim, apenas confirma algo que os adeptos do ceticismo político já vêm alertando há tempos: o Estado não deve se meter naquilo que se é chamado de “cultura”. A esta altura, não é preciso descrever a cena promovida pelo dramaturgo, pois todos já devem ter tido acesso ao vídeo. Sem dúvida uma obra de arte, uma imitação fiel à imagem e aos pensamentos de Joseph Goebbels, talvez mais adequada a um teatro ou a uma sala de cinema, mas não a um órgão oficial de governo.

Naqueles dias Alvim celebrava o lançamento de um prêmio para “obras artísticas” que seriam avaliadas pelo próprio governo. Em outras palavras, o dinheiro do pagador de impostos estaria sendo disponibilizado para premiar criações abstratas sem nenhum fim utilitário evidente. Isto em um país pobre, que passa por uma severa crise econômica e fiscal, onde praticamente metade da população não tem acesso a esgoto.

A cena proporcionada pelo ex-Secretário não deveria nos fazer apenas refletir sobre o que o governo federal tem feito em relação à “cultura”, mas sim o porquê de acreditarmos que, antes de tudo, o Estado e seus administradores “iluminados” deveriam “proporcionar” a cultura. Ora, desde quando a cultura é algo aplicado de cima para baixo, como uma decisão racional, promovida por nossas classes dirigentes? Qual o político brasileiro que inventou o forró, a capoeira, a missa aos domingos, o batuque africano, os rituais indígenas, o boteco do sábado à noite, a viola sertaneja dos tropeiros, os profetas da chuva nordestina ou a roda de samba?

A cultura nunca necessitou de decisões ou estímulos de governo para prosperar, ela emana do cotidiano das pessoas e dos povos e costumes que se encontram em uma determinada região, é vigorosa tanto quanto se manifesta a partir da liberdade de ação praticada por seus personagens. Ela é autêntica enquanto espontânea, e suprimida à medida em que decisões políticas arbitrárias tentam a moldar. Interferir neste processo é uma prática historicamente restritiva, trata-se do governante dizendo ao seu povo: “sei que todos têm suas preferências, porém utilizarei parte de seus recursos para ensejar meus ideais, que julgo serem melhores, mais sadios e benevolentes, frente às práticas ultrapassadas e condenáveis que hoje observamos entre aqueles que aqui vivem”.

É de se surpreender que tal iniciativa, soberba e autoritária em sua origem, seja tratada com tanta naturalidade em nossos tempos, o que nos remete às distopias escritas por George Orwell (1984) e Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) – após os traumas vividos pela humanidade durante o Século XX -, que denunciavam o possível futuro ao qual a civilização estava se dirigindo à medida em que cedia, pouco a pouco, suas liberdades a administradores públicos, homens comuns que se julgavam capazes de solucionar os principais problemas da vida em sociedade através do estabelecimento de um planejamento rígido e centralizado, que disciplinaria os esforços humanos rumo a um estágio de felicidade e bem-estar plenos.

Dar poder ao Estado para que se decida quais as “obras de arte” que receberão incentivos, acreditando que nossos governantes são capazes de fazer escolhas sensatas, não é nada mais que dar poder para que um certo grupo – composto por algumas dezenas de pessoas – possa escolher quais os outros grupos (ou indivíduos) que se beneficiarão com os recursos tirados de cidadãos que, na maioria das vezes, sequer saberão que estão financiando determinados projetos. Em um país pobre, tal sistema de repasses chega a ser cruel, para não dizer desumano.

Temos certeza que muitos leitores alegarão que é plenamente possível almejarmos um Ministério da Cultura “justo”, capaz de apoiar financeiramente “bons projetos”, que se converterão em um bem ainda maior para a sociedade. Mas pense bem, repare a realidade ao seu redor, perceba a variedade de crenças, ideias, visões, gostos e comportamentos que se descortinam diante de seus olhos. Havendo tamanha diversidade, seria mesmo sensato se utilizar do dinheiro de certas pessoas para “contribuir” com as ideias de outras? Não seria o caso assumirmos uma posição de humildade perante a complexidade do mundo e permitirmos que os cidadãos, individualmente, façam suas escolhas?

Como nos ensina Milton Friedman, a melhor decisão econômica é aquela tomada diante do cenário mais próximo possível daquele indivíduo que gerou valor para a sociedade e decidirá o que fazer com os seus próprios recursos. Seja ele pobre ou rico, instruído ou não. Se o João ganhou R$100,00 e busca um entretenimento, cabe a ele decidir se vai ao cinema ver um super-herói americano, à orquestra sinfônica de sua cidade ou à apresentação do grupo de teatro beneficente do bairro. A melhor escolha será aquela que mais o satisfaz, e os artistas mais bem-sucedidos serão aqueles que conseguirem convencer o João de que vale à pena abrir mão de seus recursos para ter acesso à obra que estão oferecendo. Eis o funcionamento de uma sociedade aberta, onde o ser-humano é respeitado em suas aspirações e decisões mais íntimas.

Portanto Roberto Alvim não deveria ser o único dispensado de seu cargo, mas sim toda a ideia de cultura como jurisdição de burocratas e políticos que, em teoria, devem fazer boas escolhas. E lembre-se que: a democracia que hoje representa seu pensamento, pode ser também a democracia que o rejeitará, e não há melhor imunidade a isso do que a complexa, imprevisível, controversa, mas também apaixonante, liberdade.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


Clique na imagem acima e doe a partir de R$1,00/mês para se tornar um de nossos apoiadores

2 comentários em “O espetáculo de Roberto Alvim nos mostra, mais uma vez, porque a cultura nunca deveria ter sido assunto de Estado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: