O espetáculo de Roberto Alvim nos mostra, mais uma vez, porque a cultura nunca deveria ter sido assunto de Estado

O espetáculo nacionalista promovido pelo ex-Secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim, apenas confirma algo que os adeptos do ceticismo político já vêm alertando há tempos: o Estado não deve se meter naquilo que se é chamado de “cultura”. A esta altura, não é preciso descrever a cena promovida pelo dramaturgo, pois todos já devem ter tido acesso ao vídeo. Sem dúvida uma obra de arte, uma imitação fiel à imagem e aos pensamentos de Joseph Goebbels, talvez mais adequada a um teatro ou a uma sala de cinema, mas não a um órgão oficial de governo.

Naqueles dias Alvim celebrava o lançamento de um prêmio para “obras artísticas” que seriam avaliadas pelo próprio governo. Em outras palavras, o dinheiro do pagador de impostos estaria sendo disponibilizado para premiar criações abstratas sem nenhum fim utilitário evidente. Isto em um país pobre, que passa por uma severa crise econômica e fiscal, onde praticamente metade da população não tem acesso a esgoto.

A cena proporcionada pelo ex-Secretário não deveria nos fazer apenas refletir sobre o que o governo federal tem feito em relação à “cultura”, mas sim o porquê de acreditarmos que, antes de tudo, o Estado e seus administradores “iluminados” deveriam “proporcionar” a cultura. Ora, desde quando a cultura é algo aplicado de cima para baixo, como uma decisão racional, promovida por nossas classes dirigentes? Qual o político brasileiro que inventou o forró, a capoeira, a missa aos domingos, o batuque africano, os rituais indígenas, o boteco do sábado à noite, a viola sertaneja dos tropeiros, os profetas da chuva nordestina ou a roda de samba?

A cultura nunca necessitou de decisões ou estímulos de governo para prosperar, ela emana do cotidiano das pessoas e dos povos e costumes que se encontram em uma determinada região, é vigorosa tanto quanto se manifesta a partir da liberdade de ação praticada por seus personagens. Ela é autêntica enquanto espontânea, e suprimida à medida em que decisões políticas arbitrárias tentam a moldar. Interferir neste processo é uma prática historicamente restritiva, trata-se do governante dizendo ao seu povo: “sei que todos têm suas preferências, porém utilizarei parte de seus recursos para ensejar meus ideais, que julgo serem melhores, mais sadios e benevolentes, frente às práticas ultrapassadas e condenáveis que hoje observamos entre aqueles que aqui vivem”.

É de se surpreender que tal iniciativa, soberba e autoritária em sua origem, seja tratada com tanta naturalidade em nossos tempos, o que nos remete às distopias escritas por George Orwell (1984) e Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) – após os traumas vividos pela humanidade durante o Século XX -, que denunciavam o possível futuro ao qual a civilização estava se dirigindo à medida em que cedia, pouco a pouco, suas liberdades a administradores públicos, homens comuns que se julgavam capazes de solucionar os principais problemas da vida em sociedade através do estabelecimento de um planejamento rígido e centralizado, que disciplinaria os esforços humanos rumo a um estágio de felicidade e bem-estar plenos.

Dar poder ao Estado para que se decida quais as “obras de arte” que receberão incentivos, acreditando que nossos governantes são capazes de fazer escolhas sensatas, não é nada mais que dar poder para que um certo grupo – composto por algumas dezenas de pessoas – possa escolher quais os outros grupos (ou indivíduos) que se beneficiarão com os recursos tirados de cidadãos que, na maioria das vezes, sequer saberão que estão financiando determinados projetos. Em um país pobre, tal sistema de repasses chega a ser cruel, para não dizer desumano.

Temos certeza que muitos leitores alegarão que é plenamente possível almejarmos um Ministério da Cultura “justo”, capaz de apoiar financeiramente “bons projetos”, que se converterão em um bem ainda maior para a sociedade. Mas pense bem, repare a realidade ao seu redor, perceba a variedade de crenças, ideias, visões, gostos e comportamentos que se descortinam diante de seus olhos. Havendo tamanha diversidade, seria mesmo sensato se utilizar do dinheiro de certas pessoas para “contribuir” com as ideias de outras? Não seria o caso assumirmos uma posição de humildade perante a complexidade do mundo e permitirmos que os cidadãos, individualmente, façam suas escolhas?

Como nos ensina Milton Friedman, a melhor decisão econômica é aquela tomada diante do cenário mais próximo possível daquele indivíduo que gerou valor para a sociedade e decidirá o que fazer com os seus próprios recursos. Seja ele pobre ou rico, instruído ou não. Se o João ganhou R$100,00 e busca um entretenimento, cabe a ele decidir se vai ao cinema ver um super-herói americano, à orquestra sinfônica de sua cidade ou à apresentação do grupo de teatro beneficente do bairro. A melhor escolha será aquela que mais o satisfaz, e os artistas mais bem-sucedidos serão aqueles que conseguirem convencer o João de que vale à pena abrir mão de seus recursos para ter acesso à obra que estão oferecendo. Eis o funcionamento de uma sociedade aberta, onde o ser-humano é respeitado em suas aspirações e decisões mais íntimas.

Portanto Roberto Alvim não deveria ser o único dispensado de seu cargo, mas sim toda a ideia de cultura como jurisdição de burocratas e políticos que, em teoria, devem fazer boas escolhas. E lembre-se que: a democracia que hoje representa seu pensamento, pode ser também a democracia que o rejeitará, e não há melhor imunidade a isso do que a complexa, imprevisível, controversa, mas também apaixonante, liberdade.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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Não há motivos suficientes para uma guerra, muito menos para uma guerra mundial

Vamos deixar uma coisa bem clara: não haverá terceira guerra mundial e nem uma invasão dos EUA ao Irã. Quem fala isso ou é retardado ou está fazendo humor.

O motivo principal é bem simples: a guerra não interessa a nenhuma das partes.

Apesar do radicalismo dos aiatolás iranianos, eles não são completos idiotas e sabem muito bem que não possuem nenhuma chance frente ao poderia militar americano. Os EUA gastam por ano mais de meio trilhão de dólares em defesa, enquanto o Irã não passa de 13 bilhões. Ou seja, os yankees gastam aproximadamente 40 vezes mais que os persas.

Muitos de vocês viram seus amigos esquerdistas dizendo que os EUA querem o Petróleo do Irã, algo absolutamente descabido. Os EUA são o maior produtor de petróleo do mundo, produzindo em torno de 16% do total mundial, enquanto o Irã produz 5%. Vale lembrar que os EUA consomem 20% do petróleo do mundo. Em outras palavras, se o “déficit” de petróleo dos EUA é 4% da produção mundial, 95% dela está disponível para “compra”.

Além disso, os EUA ainda nem começaram a pagar os custos da Guerra do Iraque que custou mais de 2 trilhões de dólares. Lembrando que o Irã é maior e mais populoso que o Iraque, o custo de uma invasão e ocupação do país provavelmente seria maior, algo que dificilmente soaria bem com o eleitorado americano. Uma pesquisa da Universidade de Maryland mostrou que o público americano não aprova uma guerra com o Irã e o Trump quer se eleger em 2020.

Então por que os EUA resolveram por fim ao general Qassem Soleimani? São vários os motivos, mas vamos listar alguns:

  • No final do ano passado houve um ataque terrorista à instalações petrolíferas da Arabia Saudita – aliada dos EUA e inimiga do Irã. Ibrahim al-Assaf, chanceler saudita, acusou o Irã.
  • Soleimani criou um “bloco” Xiita no Oriente Médio (a Arabia Saudita é sunita).
  • De acordo com o governo americano, Soleimani e outros 5 iranianos foram responsáveis pela tentativa de assassinato do embaixador saudita em Washington.
  • Ele foi um dos dirigentes do Hezbollah (grupo terrorista xiita) nos anos 90 contra forças israelenses no sul do Líbado.
  • Suas ações chegaram até na América do Sul. Em 1994, o iraniano articulou um atentado contra a comunidade judaica argentina, que deixou 300 feridos e 85 mortos.

Em resumo, Soleimani estava longe de ser santo e ele fez por onde para merecer o destino que teve.

Fontes:

https://www.statista.com/chart/19367/share-of-global-oil-production/

https://www.reuters.com/article/us-iraq-war-anniversary-idUSBRE92D0PG20130314

https://www.usatoday.com/story/news/politics/2019/09/16/donald-trump-u-s-doesnt-need-mideast-oil-discusses-iran-response/2339329001/

https://www.treasury.gov/press-center/press-releases/pages/tg1320.aspx

https://veja.abril.com.br/mundo/suleimani-articulou-atentado-que-matou-85-em-buenos-aires/


CONRADO ABREU
Empresário
Bacharel em Relações Públicas pela Universidade Federal de Minas Gerais
Mestrando em Administração de Empresas na Fundação Dom Cabral


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Porque o governo deveria dar fim ao salário mínimo

O salário mínimo passa em geral a ideia de segurança e proteção aos trabalhadores por parte do Estado, mas na prática este é o único efeito que esta lei não gera: a lei do “salário mínimo” não impede a exploração por parte da burguesia “opressora” como é ensinado nas escolas, mas sua verdadeira função é permitir a exploração por parte de algumas empresas e também destruir suas concorrentes, deturpando o equilíbrio natural do mercado a fim de beneficiar certos grupos.

Atualmente a Suíça possui uma média salarial equivalente a US$20 por hora de trabalho, esse é o valor que um brasileiro recebe em um dia inteiro. Esse país possui uma das maiores médias salariais do mundo. Um fato muito interessante é que na Suíça não existe salário mínimo. Além deste, vários outros países com altíssimas médias salário como a Dinamarca, Suécia, Finlândia e Áustria não possuem leis de salário mínimo, ou mesmo uma “CLT” (Consolidação das Leis Trabalhistas). Por que isso acontece?

Por exemplo, em um livre mercado, um trabalhador esforçado que produza em média um valor hipotético de $3000, supondo que seja um valor mediano – é o quanto vale sua força de trabalho manufaturado em uma determinada área, ou seja, sua produtividade total; mas como não possui os meios de produção este número não representa o valor exato que irá receber. O dono da empresa da qual este funcionário trabalha, aceita pagar apenas $700 em troca de seus serviços, e ganha um valor relativo a $2300 – o empregado aceita, afinal, vale à pena, sendo $700 melhor que zero.

Outra empresa concorrente da primeira resolve contratar o mesmo funcionário por um valor maior – oferece $1000. Ainda assim o patrão está lucrando $2000, vale à pena para o empresário e para o funcionário, que concorda com a oferta. De mesmo modo, outras empresas também desejam essa valiosa mão de obra para, é claro, obterem lucros – e a única forma de consegui-la é oferecendo salário, privilégios e condições laborais cada vez melhores.

Até mesmo pequenas empresas podem contratá-lo, de forma a concorrerem com as demais, visto que vale à pena, pois o funcionário produz mais do que custa. Isto demonstra que o funcionário, assim como seu patrão, também possui o poder de barganhar no sistema de contratos voluntários. Os direitos e privilégios que o livre mercado garante aos trabalhadores superam de longe o que o Estado finge garantir com suas meras e utópicas leis e burocracias.

Outro empresário resolve contratar este funcionário, oferecendo um valor muito mais elevado: $2000, obtendo um lucro de $1000. Outras empresas não podem mais concorrer, pagando um salário mais elevado que $2000, pois seu lucro se tornaria tão baixo na medida em que não compensaria os riscos e os gastos de ter um empreendimento. O empreendedor também precisa obter lucro, afinal os meios de produção não são gratuitos.

Perante a lei do valor marginal, todo serviço ou produto possui seu valor que é exatamente igual à sua utilidade para a sociedade. No livre mercado o salário do funcionário tende a se tornar proporcional à utilidade do seu trabalho (“$2000”) em relação à compensação de se possuir os meios de produção (“$1000”), que representa o ganho do empreendedor (os valores e as proporções são meramente hipotéticos).

Contudo, tal realidade é distorcida pela lei do “salário mínimo”, que deveria se chamar “lei de mínima produção para poder trabalhar”, pois esta é a sua função literal. Por exemplo, se uma pessoa possui um valor de trabalho baixo, utilizando a mesma proporção hipotética do exemplo anterior, igual a $1000, como é dependente dos meios de produção, seu salário é $700, enquanto seu patrão ganha $300.

O “salário mínimo” exige que o pagamento seja de no mínimo $1000. Deste modo, é certo afirmar que o patrão, que antes pagava $700 a seu funcionário, agora irá pagar o rendimento exato de sua produção ($1000), certo? A resposta é não, afinal não compensaria para o empreendedor manter este funcionário, que logicamente seria demitido e, com isso, a empresa perderia um valor de $300 e o funcionário, como não poderá mais arrumar um emprego, perderá $700, ficando com uma renda mensal igual a zero – ambos saem prejudicados.

A relação que existe entre funcionário e patrão é muito mais similar à questão de cooperação, no ponto de que um depende do outro, do que de exploração, como nos é ensinado nas escolas. Todos os funcionários que produzam um valor menor ou igual a $1000 simplesmente não conseguirão mais emprego – a lei do “salário mínimo” é o maior responsável pelo desemprego no Brasil e no mundo. Isso torna impossível que empresas pequenas cresçam e concorram com as grandes, tal como os funcionários com baixa ou nenhuma experiência de trabalho.

Por exemplo, um empreendimento recém-criado e pouco conhecido possui inicialmente um lucro muito baixo e para se manter é preciso contratar funcionários com o custo salarial também baixo, mas ainda assim produtivo. Conforme os funcionários passem a adquirir maior experiência de trabalho, suas produtividades aumentam junto com seus salários e, além disto, a empresa estará crescendo e se esforçando cada vez mais para concorrer e se manter no mercado, o que significa melhores condições de trabalho para seus funcionários e produtos de qualidades para seus clientes.

Mas, com a lei de “salário mínimo”, as pequenas empresas são impedidas de crescerem e mesmo de nascerem, e isso acaba com a concorrência frente às grandes corporações aliadas ao Estado. Mas até aí, “tudo bem!”. O maior problema desta lei está no fato de que agora há muitos desempregados e poucas ofertas de emprego para concorrerem entre si. Com isso, os empregados que antes eram contratados por um valor relativamente mais elevado devido à sua experiência, “$1500”, “$2000” ou “$3000”, agora precisam se agarrar a seus empregos para não serem, é claro, demitidos e substituídos pelas outras pessoas que estão desempregadas e dispostas a trabalhar em seu lugar.

É neste momento que os trabalhadores se tornam “produtos descartáveis” e assim as grandes empresas não precisam mais manter os salários adequados a seus funcionários e passam a ter o privilégio de reduzi-los até o mínimo, ou seja, “$1000”, ou talvez um pouco mais, dependendo da concorrência ainda existente. Os funcionários terão de aceitar essa drástica redução salarial, visto que não haverá outra oferta de emprego, como segunda opção. E assim a lei de salário mínimo revela sua verdadeira e única função: que é prejudicar a vida dos trabalhadores e privilegiar grandes empresas.

É desta forma que o Estado beneficia o corporativismo, em detrimento das classes abaixo e entregando a melhor força de trabalho (aqueles que não foram demitidos) por um custo salarial baixíssimo para esta “aristocracia moderna”… É somente para isso que existe a lei de “salário mínimo” e o mesmo vale para as demais burocracias da CLT.

“Direitos” Trabalhistas nos atrasam:

Desse modo se torna evidente a razão dos países com menores quantidades de “leis e direitos trabalhistas” serem em geral os destinos para onde as pessoas emigram, e os países com maior quantidade desses “diretos”, o local de onde essas pessoas fogem. Se não fosse deste modo, então veríamos estadunidenses fugindo para o México, ou para Cuba, e não o contrário.

Talvez não haja nenhum outro país com maior número de “direitos trabalhistas” que a Venezuela, todos os meses o governo anuncia que irá dobrar, triplicar, quadruplicar o salário mínimo, mas a situação dos trabalhadores venezuelanos continua indo de mau a pior – fome, péssimas condições de vida, uma imensa desigualdade social e o “culpado” continua sendo o capitalismo, o “neoliberalismo”, ou os EUA – isso é o que se ensina na Venezuela, por esta razão ainda há muitas pessoas que apoiam o governo socialista de Hugo Chávez. Assim, mesmo enfrentando todos os problemas que se pode imaginar, o Estado é capaz de se manter e expandir; é possível que, em breve, a Venezuela não seja tão diferente da Coréia do Norte.

O ciclo doutrinário é igual em todos os países, e o mesmo ocorre no Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, sufocados por suas inúmeras burocracias e impostos, sendo que ainda assim o pensamento dominante em nossas escolas diz que o culpado por isso é o “capitalismo” ou o “neoliberalismo” – conduzindo a população a clamar por um nível cada vez maior de intervenções do Estado.

Existem diversos outros “direitos” e leis trabalhistas, que falham propositalmente em ajudar os trabalhadores, servindo apenas para beneficiar o corporativismo entre políticos e grandes empresários. Essas leis também servem para gerar um “espírito” intrínseco de dependência nas pessoas por parte das forças estatais, como no caso da previdência social – é assim que o Estado se mantém e privilegia os donos do poder.

O mesmo ocorre com os programas políticos para incentivar pequenos e médios empreendimentos – é como se o “governo quebrasse as nossas pernas e em seguida nos vendesse a muleta” (digo “vendesse” pois ainda temos que pagar impostos), assim esses pequenos empresários tornam-se dependentes do Estado. Muitos até mesmo passam a apoiar a ação estatal, tendo em mente que o culpado pelos seus problemas é o livre mercado, sendo que sabemos muito bem que o real problema é justamente a sua ausência.


DALES DEPETRIS
Escritor / Ativista Libertário
Autor do livro “Libertarianismo: O que não te ensinaram nas escolas”
Fundador do Movimento Libertário Ortodoxo


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A esquerda diante do terror do fundamentalismo islâmico: covardia ou cumplicidade?

Em seguidos ataques do terror fundamentalista islâmico contra alvos do Ocidente, a esquerda internacional e brasileira reagiu, em geral, com disfarçada simpatia para com os agressores. No Brasil, jornalistas, políticos e demais intelectuais orgânicos progressistas fizeram pronunciamentos e escreveram longos artigos que, de ordinário, começam por uma condenação formal do atentado, imediatamente seguida por “mas” ou outra expressão alternativa qualquer, a partir da qual se passa a atacar o Ocidente por ser capitalista, egoísta, consumista e malvado; ipso facto, dá-se a entender que seria principalmente do Ocidente a culpa por ter sido atacado.

Agora, com o ataque de uma potência ocidental a um alvo terrorista, no caso a eliminação do general iraniano Qassem Soleimani pelos Estados Unidos, a reação da esquerda dispensou a conjunção alternativa e qualquer outra possível relativização, acusando do começo ao fim a ação norte-americana como sendo um crime injustificável. O general Soleimani, porém, notabilizou-se como o principal estrategista e comandante das ações militares internacionais do regime fundamentalista do Irã; tanto aquelas de caráter abertamente militar quanto aquelas de ação secreta terrorista. Um dos atos terroristas coordenados por Soleimani foi o ataque à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 18 de julho de 1994, com resultado de 85 mortos e 300 feridos. É esse um dos motivos pelos quais o Estado de Israel apoiou o ataque: “Da mesma forma que Israel tem o direito de autodefesa, os EUA têm exatamente o mesmo direito”, disse o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.

Autoridades dos Estados Unidos, a começar pelo presidente Trump, afirmam que o general iraniano estava articulando atentados terroristas que em breve alcançariam alvos norte-americanos. Certamente a esquerda não dará crédito a essas autoridades, mas dará crédito a tudo que as autoridades iranianas declararem. A reação antiamericana histérica da esquerda mais radical era de se esperar, mas que o pedetista Ciro Gomes tenha sido dos primeiros a verberar contra o governo norte-americano, surpreende um pouco. Pelas suas redes sociais, Ciro mandou ver: “O Brasil deve pedir à comunidade internacional uma condenação deste ato impensado de violência de Estado”.

O ato norte-americano de eliminação do general Soleimani pode ter sido tudo, menos impensado. Desde pelo menos o governo de Barack Obama que tal ato tem sido pensado, não tendo sido executado por cautela. De todo modo, felizmente, o governo brasileiro não seguiu a orientação de Ciro; pelo contrário, em nota, o Itamaraty afirmou que “o governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo”; nota essa que foi, por sua vez, repudiada pelo PT – eterno apoiador de tudo o que não presta ao redor do mundo. O Partido dos Trabalhadores condenou veementemente a ação norte–americana, afirmando ser “lamentável que o governo brasileiro tenha manifestado apoio a tal ação sob o argumento de combater o terrorismo.”

Embora pensado, o ato ordenado pelo presidente Donald Trump foi de alto risco. Mas correr risco faz parte da ação política. A retaliação, a vingança prometida pelo Irã também será de alto risco. Mas a esquerda não quer correr risco nenhum. Ela sabe que pode falar o que quiser contra os países democráticos, pois estarão constitucionalmente protegidos, enquanto nos regimes fundamentalistas islâmicos nem é preciso falar muito para ser morto: as mulheres são escravizadas e podem ser apedrejadas até a morte por práticas consideradas criminosas, como o adultério; e lá o homossexualismo, vejam só, é punido severamente, em geral com enforcamento. Sobre estes hediondos atrasos os esquerdistas arautos dos direitos humanos, calam-se solenemente.

Face ao governo, religião e costumes dos seus respectivos países no Ocidente democrático, os esquerdistas são de uma audácia ilimitada (vide o Porta dos Fundos). Diante do fundamentalismo islâmico são contidos pela covardia. Ou será pela cumplicidade?


CATARINA ROCHAMONTE
Articulista / Escritora / Palestrante
Professora Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos
Vice-Presidente do Instituto Liberal do Nordeste


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“Minha Mãe é uma Peça 3” bate “Star Wars” e prova como o cinema brasileiro não precisa do Estado

Em sua primeira semana em cartaz, o filme Minha Mãe é uma Peça 3 levou às salas de cinema quase 2 milhões de pessoas, cerca de quatro vezes mais que o milionário Star Wars: A Ascensão de Skywalker, que atraiu 493.269 espectadores. Tais números alcançados pelo filme estrelado pelo ator carioca Paulo Gustavo nos fazem refletir sobre a real necessidade de se usar dinheiro público e reservar cotas para apoiar o cinema nacional.

Ora, se o cinema nacional consegue produzir filmes que geram lucro e atraem tantas pessoas, qual seria o sentido de se direcionar esforços institucionais para apoiar o mesmo? Sabemos que nem todos os filmes conseguem atrair tantos espectadores, assim como nem todos os projetos de filmes saem do papel. Mas isto deveria ser, justamente, um motivo para os cineastas brasileiros entenderem que, para crescer e desenvolver um mercado financeiramente sustentável, é preciso encarar o desafio de se financiar por meios privados, assim como criar formas de competir frente a frente com a grande indústria norte-americana.

Manter reservas de mercado e privilégios garantidos pelo Estado é condenar o cinema brasileiro a uma eterna postura de mediocridade, habituando os profissionais deste setor a estarem sempre à mercê daqueles que chegam ao poder, e não de seus próprios esforços. Com o Estado intervindo, aqueles com maiores benefícios serão os grupos mais articulados politicamente, que conseguem agradar as autoridades que estão em comando. Retirando o Estado do jogo, destacam-se os melhores, aqueles que realmente sabem tirar boas ideias do papel, que conseguem convencer seus financiadores e, por fim, mostrar ao público que vale à pena pagar um ingresso para apreciar o produto desenvolvido.

É por essas e outras que os envolvidos na produção de “Minha Mãe é uma Peça 3” estão de parabéns, pois demonstram que o público brasileiro está disposto a pagar por produtos de qualidade, sejam eles nacionais ou não. O maior apoio que o Estado pode oferecer ao cinema e à cultura é a liberdade, um ambiente salutar de crescimento e autonomia, e não o intervencionismo, com todos os seus vícios e inclinações à corrupção.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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“Essa página é liberal ou libertária?” Entenda o que pensa a Nordeste Livre

Desde que a Nordeste Livre iniciou seus trabalhos de difusão da liberdade nas redes sociais, em especial no Facebook, onde apresentou notório crescimento ao atingir mais de 120 mil seguidores, não são raros os pedidos para que expliquemos nossas ideias, havendo um descontentamento com a falta de definições. Liberais, libertários e conservadores vêm e vão de nossas redes, ora satisfeitos com alguma publicação que esteja de acordo com suas crenças, ora insatisfeitos por serem contrariados.

Pois bem, não temos nenhum problema em esclarecer as coisas, apesar de não ser uma tarefa simples. A começar, nossos leitores devem entender que não compactuamos com a visão simplista de se enquadrar uma determinada organização em uma classificação estrita. Consideramos tal prática um vício de nossos tempos, uma espécie de neotribalismo que vem tomando conta do debate público. Para exemplificar de forma mais clara, vamos trazer o pensamento de um pensador conservador que apreciamos: o norte-americano Russell Kirk.

Kirk sustenta que a ideologia – no sentido amplo da palavra – é um fator cognitivo limitante para se entender a realidade. Ela não se baseia no mundo concreto, mas em um sistema de ideias que tenta com muito esforço se aplicar à complexidade dos fatos cotidianos. A insistência em se usar os “ismos” é um dos grande males da modernidade e, portanto, Kirk sugere que o conservadorismo é justamente a oposição ao ideologismo. Socialismo, fascismo, comunismo, liberalismo, libertarianismo, todos se constituem como o estabelecimento de condutas a priori. A própria ideia de conservadorismo como ideologia, para Kirk, é um erro grave entre os próprios conservadores.

A ideologia é como um par de óculos com lentes coloridas, podendo o indivíduo escolher a cor que quiser. Alguns escolhem lentes vermelhas, outros verdes, outras amarelas, e não importa o quão difícil de entender seja o evento que se descortina frente aos seus olhos, ele sempre será visto através da mesma lente. Aquele que se opõe às ideologias prefere não usar os óculos, apreciando o objeto de observação com maior clareza e humildade, pronto para ser surpreendido por aquilo que não entende.

Um excelente exemplo para ilustrar o que Kirk quer dizer é observando o acontecimento internacional mais marcante deste começo de 2020: o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, promovido pelo governo dos EUA. Após o fato ter se concretizado e a notícia ter corrido por todos os cantos do globo, já era perceptível a forma leviana com que muitos se dispunham a discorrer sobre o evento.

Um dos grupos que mais nos chamam a atenção quando algo desta envergadura acontece é a esquerda de forma geral, mas vamos tratar aqui especialmente da esquerda brasileira, pois é a que mais se destaca pela proximidade e por seu teor anti-americano. Dê uma olhada nas opiniões de todos os comunicadores e articulistas deste grupo, você vai perceber como são ideias homogêneas, mesmo que se refiram a um contexto extremamente complexo (como o Oriente Médio). Todas as opiniões sobre o assunto gravitam em torno da ideia de que os EUA estão errados e o ataque deve ser condenado. Simples assim.

Agora repare a opinião desse mesmo grupo sobre outros eventos envolvendo ataques americanos ou mesmo ataques terroristas pela Europa, a regra é sempre a mesma: o que os americanos fizerem, condene. O que os israelenses fizerem, condene. O que os extremistas islâmicos fizerem, justifique (ou pelo menos suavize). O padrão é sempre o mesmo. É como uma playlist com a mesma música tocando repetidamente por tempo indeterminado.

O mesmo acontece durante o atual governo brasileiro de Jair Bolsonaro: quando Bolsonaro acertar, reprove, quando Bolsonaro errar, comemore. Isto, meus amigos, é a leitura da realidade através das lentes da ideologia. Não importa o que acontecer ou o quão complexo o acontecimento for, simplesmente reproduza as regras predeterminadas de interpretação dos fatos. Assumindo tal postura cognitiva, torna-se natural que haja um embotamento intelectual por parte daqueles que buscam se aproximar da verdade. Em outras palavras: tudo se torna uma briga de “torcida de futebol”, a sua visão contra a minha visão, e quem gritar mais alto vence.

Para aqueles leitores que têm o interesse em conhecer melhor este assunto, recomendamos a leitura da obra A Política da Prudência, onde Kirk desenvolve melhor suas visões sobre o conceito de ideologia. Uma vez apresentadas nossas ideias sobre o que é ideologia, podemos passar para a fase principal, dizer o que pensamos. Lembramos que utilizamos o termo “orientações ideológicas” em nosso título mais por razões didáticas, uma vez que tal expressão já foi amplamente difundida em nossos tempos, facilitando a compreensão do assunto tratado por aqueles que acessam o artigo.

E então, qual a visão da Nordeste Livre?

Respondemos: não temos uma palavra estrita para definir o que pensamos, muito embora gravitemos em torno do que se costumou ser chamado de liberalismo clássico, libertarianismo e conservadorismo. Sim, todos esses três, e tentaremos explicar.

Em termos de Economia, aproximamo-nos muito das ideias defendidas pelos libertários, em especial os economistas da Escola Austríaca, como Hayek, Mises, e mesmo Hoppe e Rothbard (tendo ressalvas sobre os dois últimos em vários pontos). Isto não nos impede de apreciarmos muitas ideias de liberais mais moderados, como Milton Friedman ou mesmo o brasileiro Roberto Campos. Como vivemos em um país muito estatista, acreditamos que a difusão do pensamento libertário é de grande valia para equilibrar a balança, abrindo os olhos dos brasileiros para visões que estão além do “Estado como provedor de progresso e desenvolvimento”. As ideias libertárias na economia têm o potencial de fazer com que nossos cidadãos entendam os grande ganhos que nosso país poderia ter se desse mais liberdade para que a iniciativa privada prosperasse.

Outro fator que nos aproxima do libertarianismo econômico é a rápida velocidade de mudança tecnológica que temos testemunhado nos últimos anos, com mercados sendo revolucionados pela ágil troca de informações proporcionada pela internet. Consideramos que o progresso da livre iniciativa se tornou tão intenso que o Estado, mais do que nunca, é um empecilho para que as vantagens de tal processo cheguem aos mais necessitados. Nossas instituições políticas são lentas e não conseguem se adequar às evoluções exponenciais dos mercados, que não podem ficar esperando por “regulações” que exigem meses ou até anos de debate para que se decida como devem operar. O libertarianismo econômico vem se tornando o arcabouço de ideias mais próximo do que está acontecendo neste Século XXI.

Saindo da Economia e entrando na esfera Política sobre como o Estado deve se organizar e gerir suas funções, aproximamo-nos do liberalismo clássico, considerando a tripartição de poderes em Montesquieu um dos sistemas mais sofisticados desenvolvidos por nossa civilização em termos de controle do poder e tudo que envolve sua acumulação. Este liberalismo clássico está presente em muitas partes de nossa Constituição, apesar de ser consideravelmente ofuscado pelo excesso de funções atribuídas ao Estado no campo social, gerando uma tensão entre modelo liberal e modelo social-democrata. Curioso lembrar que muitos juristas negam esta tensão, inclinados a reconhecer a Constituição de 1988 como um exemplo para o restante da comunidade internacional. Não pensamos assim. A CF88 tem suas virtudes, mas a maior parte de seu texto é repleto de visões idealistas que preferem fingir que alguns aspectos duros da realidade não existem, sendo um dos principais deles a escassez dos recursos (algo muito conhecido entre economistas). Nossa carta magna é por demais rousseauniana e intervencionista, enquanto nós, como céticos, preferiríamos algo mais contido e estruturado não para exaltar o poder, mas para contê-lo.

Outra característica importante do Estado liberal clássico é o princípio da subsidiariedade, que entendemos como o poder partindo do menor fragmento da sociedade, que é o indivíduo. Do indivíduo para a família, da família para a comunidade, da comunidade para o bairro, depois município, estado e união. De todas as esferas do poder, a que deve ter menos recursos é a união, e a que deve ter mais recursos é a individual. O poder deve estar próximo das pessoas, somos estritamente contrários ao acúmulo de poder em uma entidade central, como da forma que acontece em ditaduras e em federações de “fachada” como a brasileira. Levamos a sério a frase “mais Brasil e menos Brasília”, e trabalhamos sem cessar para que nossa população entenda a importância de impedir o crescimento do governo central. As cartas dos anti-federalistas americanos são documentos valiosos para se conhecer mais sobre esta visão.

A democracia representativa é por nós tolerada, mas com certo esforço, pois como Hans-Hermann Hoppe explica em sua Democracia: O Deus que Falhou, ela tende à ascensão dos piores, ao populismo, à demagogia, à captura de vantagens e privilégios e ao endividamento geral da nação. Por isso a necessidade de se reduzir o poder do Estado, para que o indivíduo tenha menos chances de ficar exposto a esta gigantesca máquina de coerção que pode crescer indefinidamente. Algo que no curto ou médio prazo poderia amenizar este problema seria o fim do voto obrigatório, ou mesmo a exigência de determinados atributos para que o cidadão possa participar dos processos eleitorais, como ter 25 anos completos, ter segundo grau completo, ou mesmo realizar uma prova simples sobre conhecimentos gerais acerca do país. Sabemos que este tema é complexo, mas provavelmente entraríamos no debate advogando processos eleitorais mais restritivos (por uma questão de bom senso, e não de elitismo).

Faz-se importante salientar que tudo que aqui expomos são ideias pontuais sobre determinados temas, apenas para que nosso leitor possa ter uma luz sobre nossas visões. Sabemos que cada um dos temas mencionados podem ser muito aprofundados, debatidos e desenvolvidos, e é isto que esperamos fazer ao longo do tempo. Todavia, já é possível visualizar por onde transitamos, e se pudéssemos resumir, poderíamos dizer que somos libertários na Economia e liberais na Política.

Mas onde está o tal do “conservadorismo”?

Nós somos conservadores no que se refere à postura que mantemos frente à realidade. Entendemos que o mundo é um lugar amplo e complexo, e que é preciso cuidado ao se colocar em prática certas alterações, por mais bem-intencionadas que sejam. Ao lidarmos com a humanidade, entendemos que o homem não é um ser qualquer, como um número ou algo que pode ser moldado deliberadamente. Estamos resguardados pela prudência tão mencionada por Aristóteles e São Tomás de Aquino. Fugimos como podemos da “ânsia simplificadora” de nossos contemporâneos, desconfiamos quando alguém propõe soluções que parecem fáceis frente a problemas que testam nossa compreensão. É por este motivo que temos muitas ressalvas quanto ao libertarianismo, mesmo que apreciando muitas de suas visões. Em outras palavras: mantemos a pequeneza frente à imensidão do mundo e da existência humana, o que naturalmente nos afasta das ideologias que prometem transformar tudo para melhor repentinamente.

Temos plena consciência de que este texto não agradou a todos, pois cada leitor deve ter suas demandas sobre determinados temas, como drogas, papel das mulheres, política externa, imigração, secessão etc. Mas tais assuntos podem ser trabalhados em outros artigos. Por aqui iremos nos limitar a fornecer as diretrizes para que os leitores compreendam um pouco nossos pontos de partida, para que também possam entender que uma palavra não é suficiente para definir tudo que pensamos. A realidade é uma mata fechada cheia de surpresas e mistérios, portanto desconfie quando um ideólogo aparecer com respostas para tudo.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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Por que a direita brasileira é tão desorganizada?

Durante meus anos de faculdade, período em que construí minha formação no curso de Ciências Econômicas, muito me preocupava a situação do Brasil com o caminho que o país seguia ao continuar sob o controle do Partido dos Trabalhadores (estávamos em 2015). Com esta preocupação, passei a me envolver mais com política e ajudei a fundar um grupo de estudos liberal em minha universidade. Este envolvimento não foi só no âmbito das articulações, mas principalmente nos estudos. Percebi que a única forma de se opor à força das tendências socialistas que imperavam no país, era conhecendo “o que pensa o outro lado”, foi então que encontrei Hayek, Friedman, Mises, Ortega y Gasset, Bastiat, Kirk, Scruton e uma série de outros pensadores muito conhecidos no exterior, mas curiosamente ocultados no cenário nacional.

À medida que ia me aprofundando nos estudos e conhecendo a dinâmica da guerra política brasileira, fui me surpreendendo com o tamanho da força que a esquerda tinha, muito embora o brasileiro não fosse lá esse povo letrado e “por dentro” de ideias políticas. Você só percebe a bolha em que nossa gente está quando passa a ler as coisas que os acadêmicos brasileiros não gostam. Se você tiver morado no exterior, este enclausuramento intelectual fica mais visível ainda. Foi então que passei a querer entender: por que praticamente não existem “vozes de direita” no Brasil? Ora, aparentemente toda democracia que se preze tem um partido conservador, liberal, liberal-conservador ou algo do tipo, mas neste país não havia absolutamente nada.

Já ouvi uma teoria de que isso tem tudo a ver com o “desgaste” da direita após os anos de domínio dos militares, e tenho de concordar que isto realmente faz sentido, mas um ponto que passei a observar é que, a grosso modo, esquerdistas são intensamente engajados em política, enquanto direitistas só querem cuidar de suas próprias vidas e não se envolver em assunto “desgastantes” como “os problemas inerentes à sociedade e à administração pública”. Durante muito tempo, inclusive, envolver-se com política era algo que levantava enormes preconceitos, como se fosse “coisa de quem não tem o que fazer”, o que deixava o caminho totalmente aberto para os esquerdistas dominarem todas as esferas do Estado, educação e linhas editoriais.

Uma coisa que tentava explicar aos meus colegas “estudantes de gestão” é que, de fato, suas carreiras eram muito importantes, mas se eles ignorassem completamente a política, ficariam nas mãos daqueles que se interessavam, e então eu apontava o dedo em direção aos blocos dos cursos de humanas, onde o debate político é intenso, constante e acalorado, sendo pautado quase que completamente pela esquerda, tanto pelos alunos quanto pelos professores marxistas que parecem viver em função de seus “ideais revolucionários”, transformando o campus universitário em uma espécie de quartel general das suas articulações ideológicas.

Envolver-se com política enquanto se está estudando em uma faculdade “apolítica” é extremamente desgastante. As pessoas simplesmente não gostam de “misturar as coisas”, e se você tentar promover algo que desperte consciências, é simplesmente mal visto, como uma espécie de “agitador inconveniente”. Cenário totalmente diferente dos cursos de humanas, onde aqueles que promovem assuntos políticos de forma saudável e civilizada são respeitados e até destacados pelos próprios professores. Alunos de administração, por exemplo, costumam ser economicamente liberais, mas se interessam muito pouco por política, e então não entendem porque é tão difícil empreender no Brasil, ou mesmo ser um empregado, enfrentando longas jornadas de trabalho para ganhar um pequeno salário que é dividido com o governo.

Por negligenciar suas próprias cidadanias, os “direitistas” acabam ficando nas mãos dos esquerdistas. Insistem em reclamar dos políticos e falar mal de tudo e de todos, mas não fazem nada para contribuir na “guerra ideológica”, apenas continuam “cuidando de seus negócios”, não entendendo muito bem porque o país parece estar entrando em uma espécie de caos entrópico. Esta omissão em não tentar entender o que acontece na política de seu própria país, custou caro a todos nós com os escândalos promovidos pelo PT enquanto governavam. Felizmente Dilma Rousseff sofreu impeachment e eventos piores não aconteceram (e tinham tudo para acontecer).

Mas parece que as coisas estão mudando, ao jogar o sistema político em uma grave crise moral, e o povo em calamidade econômica, o PT acabou por gerar um certo ímpeto de reação, forçando milhares de brasileiros a se interessarem por política, talvez por terem visto o que estava acontecendo na Venezuela, passando a se preocupar com a manutenção de suas próprias vidas. Mas esta “reação momentânea” não é suficiente, caso queiram transformar o Brasil em um país digno de atenção, aqueles que se identificam com a direita devem passar a ocupar espaços de forma sustentável e prolongada, criando no longo prazo uma nova cultura política em nosso país.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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Como a coletividade pode ser inimiga da liberdade

Nós liberais, e muitos libertários, conseguimos com certa facilidade observar as distorções que o Estado gera na sociedade e todas as suas formas de opressão. Contudo, quando entramos em questões mais espinhosas, por receio, por vezes medo de sermos associados ao tipo de esquerda que temos no Brasil, evitamos entrar em determinados assuntos, digamos, polêmicos para o seio popular. Geralmente, esses assuntos entram em questões que com frequência são relacionadas ao molde da nossa sociedade e nos leva a refletir sobre princípios que costumam ser tabu para o nosso corpo social. Mas ser liberal é, em muitos casos, um caminho tortuoso, que nos faz trazer a luz da reflexão sob diversas narrativas, e uma delas é a cultura.

Nesse contexto, inicio o texto com uma crítica saudável à omissão que nós liberais brasileiros criamos ao longo do tempo em falarmos sobre temas da sociedade, baseados em intervencionismos não somente estatais, mas fundamentalmente culturais , pois sim, a cultura pode ser uma forma de intervenção coletiva que muitas vezes é fator originário ou estimulador de políticas igualmente intervencionistas do Estado.

Para entendermos essa problemática é necessária uma abordagem histórica, para percebermos os perigos que uma cultura não pautada na liberdade pode trazer para o nosso corpo social. Nesse aspecto, viajemos para além do Brasil, para o início das grandes nevegações, para percebermos como foi a cultura, baseada em valores católicos, um fator legitimador da perseguição de negros e a adoção de práticas escravocratas. Curioso salientarmos que os católicos tiveram primazia em difundir esses valores mais fortemente que os protestantes que, ao invés de minarem as liberdades com base em preceitos eugenísticos – de uma suposta raça branca superior – praticaram valores de liberdade. Basta olharmos que países de origem britânica prosperaram sem praticar o tráfego negreiro de maneira tão sistemática, como países como Espanha ou Portugal.

Voando um pouco mais ao futuro, observamos que foi a cultura o principal impedimento para que mulheres tivessem acesso à política, e foi neste cenário que pensadoras como Mary Wollstonecraft trouxeram à tona o movimento sufragista, mais conhecido como a “primeira onda” feminista.

Podemos observar a partir desses dois exemplos que a cultura foi um fator essencial para legitimar a opressão contra determinados grupos e, portanto, a cultura pode gerar um despotismo cultural, como diria John Stuart Mill. Esse despotismo cultural levou à supressão de valores fundamentais para pequenos grupos de indivíduos, como a liberdade de associação e desassociação, que foi por muito tempo um tabu para mulheres dos mais diversos países ocidentais. E o mais importante: foi um instrumento indispensável de legitimação para garantir mecanismos de censura social. A censura é um mecanismo vil que pode advir tanto do Estado como da própria sociedade, e que entra em total conflito com a liberdade de expressão.

Whilhelm von Humboldt já alertava no século XVIII que a prosperidade de uma nação somente era garantida quando havia uma variedade de ideias, ou seja, baseada numa pluralidade de pensamentos. A cultura enquanto mecanismo sem limites éticos que a prendam, sob uma ótica liberal, acaba por reprimir diversas vezes, utilizando para isso seus métodos coercitivos. O primeiro destes é a instrumentalização do pensamento, que a cultura impede, por meio de gestos simples, a liberdade de pensar e falar, gerando o popular “efeito manada”, onde pessoas começam a repetir o conhecimento sem um processo reflexivo, o que pode gerar problemas sérios e danosos ao pensamento do bem comum e, em caso de divergências, a truculência dos indivíduos pode ser letal a quem os contrarie.

Um bom exemplo disso foi a mácula que o nazismo deixou na civilização germânica durante o pós-guerra: mesmo depois de todas as atrocidades que vieram à tona, devido ao processo de culturalização e, portanto, de normalização, demorou-se anos até que os alemães deixassem de ver o governo nazista como algo positivo e passassem a promover uma cultura em prol da liberdade.

Um outro problema da força cultural é ela criar mecanismos coercitivos via Estado, e nesse caso há exemplos bem comuns, quando em Estados democráticos marcados pela forte participação popular, países como França ou Grã-Bretanha até não muito tempo atrás controlavam, via censura, em nome da moral, e com apoio popular, determinadas propagandas por serem “impróprias”.

Então a pergunta que fazemos após essas afirmações: a cultura e a formação de grupos deverá ser sempre negativa e portanto será sempre limitada? A resposta vai além de um simples sim ou não. O que percebo é, a cultura é a manifestação de diversos grupos e portanto ela deve ser sim preservada, pois é a partir dela que utilizamos os nortes que garantem uma vida em sociedade. Sem a cultura, sociedades complexas jamais existiriam, e basta lermos o mais básicos dos livros da pré-história para vermos que os grandes divisores de águas não foram só revoluções tecnológicas, mas de evolução cultural. Reafirmando a importância da cultura como mecanismos que garantem coesão e trabalho em grupo.

A sociedade em si, foi limitada, e agora de uma maneira verdadeiramente positiva, pela própria cultura. Nesse caso, podemos ver como uma cultura moldada em valores protestantes, crescida sob a égide do respeito à propriedade, do respeito à individualidade, e de alto grau de responsabilidade que indivíduos possuem, que garantiu, nas palavras de Nima Sanandaji, o sucesso dos países Escandinavos.

O que percebemos é que os países ou regiões onde se implantaram valores liberais foram, e são, as sociedades que mais prosperaram em termos de respeito às liberdades individuais, o que lhes conferiu e garantiu um conjunto de benesses que positivam até hoje o conforto e a propriedade privada de seus cidadãos. Portanto o limite que a cultura – assim como o Estado – tem, sempre será as liberdades individuais. Quando esses valores são suprimidos, reina-se a perseguição contra grupos minoritários ou com menos poder na sociedade em questão, como aconteceu até não muito tempo atrás com LGBTs, por exemplo.

Contudo existe uma cultura mais perniciosa, mais difícil de compenetrar e que vem ganhando mais forças nos momentos atuais dos debates políticos. É a cultura da elite intelectual, e nesse caso, “elite” é utilizado claramente de forma pejorativa, devido ao caráter sincretista que muitos intelectuais catedráticos possuem nas reflexões sociais. Essa cultura gera mecanismos mais bem elaborados, pois os envolvidos tem um certo grau de conhecimento, mas tem uma visão distorcida, justamente por uma leitura limitada da realidade, fruto de um processo de doutrinação, oriundo de uma limitação do conhecimento estimulado, inclusive pelos meios acadêmicos, promovendo a leitura e o estudo de poucas formas de pensamento, muitas vezes sinônimas entre si, gerando antagonismos violentos frente a outras linhas de ideias.

Para não esquecermos foi esse o contexto da pós segunda guerra mundial e foi baseado nesse centralismo intelectual que operou a URSS, mesmo pós Stalin, o qual comunistas e socialistas utilizaram como o único cruel déspota que desvirtuou a “virgindade socialista”. Mas negam os fatos acontecidos na Hungria e na Tchecoslováquia, sob o mandado de Nikita Kruschev, respectivamente em 1956 e 1968. Em ambos, a sociedade caminhava, em certo nível, para algo próximo de uma liberdade cultural, pelo menos algo mais livre do que operava até então sob o controle central comunista, onde, principalmente tchecos, tiveram direitos a uma imprensa crítica e livre, a fomentar ideias que, nas palavras dos “comunistas conservadores” da época, disseminavam os inaceitáveis pensamentos burgueses do ocidente. E o mais interessante: intelectuais, como Sartre, mesmo sabendo dessa barbaridade, continuavam a justificar e até a legitimar tais atos, como muito bem pondera o historiador britânico Tony Judit.

De maneira mais simplista, tais intelectuais da esquerda utilizam esses mesmos mecanismos que geram, de maneira menor, aspectos que minam as liberdades de expressão e procuram pôr fim à sociedade plural, que foi um dos pilares a garantir a instituição da propriedade privada nas nações desenvolvidas.


JÚLIO TEIXEIRA
Articulista
Graduado em Engenharia Civil pela Universidade de Fortaleza
Coordenador Local do Students for Liberty

Liberal Clásssico convicto


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Ser apolítico também é um posicionamento político

Nos últimos anos, com o cenário político brasileiro se tornando cada dia mais acalorado, foi comum escutar muitos lados e visões sobre assuntos políticos. Um desses assuntos foi a tentativa geral de definir melhor o que seria “esquerda” e o que seria “direita”, algo que, ao meu ver, foi muito positivo, considerando o estágio de maturação da democracia brasileira.

Neste cenário, uma crítica muito comum da “esquerda” sobre a “direita” é que pessoas mais à “direita” muito frequentemente não estão “conscientes” do processo histórico e do contexto social no qual elas mesmas estão inseridas. Em outras palavras, o “esquerdista” lê um pouco de Marx e um pouco de outros autores “progressistas” e começa a achar que descobriu a “falha da matrix”, como se todo mundo que não tivesse tido acesso às preciosas “informações” que ele teve conhecimento não passasse de pobres alienados. Se você é de “direita”, então você não tem a “sensibilidade” que só o “humanista ungido de esquerda tem”. Esta é uma das origens da soberba intelectual entre os “progressistas”, soberba esta que Thomas Sowell disseca impiedosamente em sua obra “Os Intelectuais e a Sociedade” (vale à pena ler este livro publicado no Brasil pela editora É Realizações).

É até compreensível o porquê deles pensarem assim. Pessoas mais “direitistas” costumam alimentar certo ceticismo em relação à política e não se atrair muito por ideologias, o que acaba dando a impressão de que são “apolíticas”, enquanto pessoas “esquerdistas” costumam ser mais interessadas em movimentos sociais, ideais abstratos, palavras de ordem e na própria política institucional em si. Uma grande dificuldade que tive como estudante liberal em uma universidade brasileira foi justamente tentar convencer pessoas que eu percebia serem liberais a contribuírem de alguma forma com a causa da liberdade no campus. Estudantes das áreas de gestão, engenharias, tecnologia, medicina, entre outras, costumam ser muito práticos e não se interessarem muito por política. Em contrapartida, estudantes de cursos de humanas são altamente engajados em movimentações políticas. Resultado? Quando falamos de “ocupações de espaços”, a direita leva uma surra nas universidades. Isso se dá porque a esquerda tem ideias melhores ou um maior número de adeptos? Não. Isso se dá porque liberais e conservadores não gostam de política, deixando o caminho livre para que haja um domínio avassalador da esquerda.

Mas vindo ao ponto central deste texto, o fato de serem mais “apolíticos” faz com que os direitistas sejam pessoas alienadas e sem consciência? Eis onde está um grande equívoco da esquerda. A característica fundamental da “direita”, segundo Russell Kirk, é a negação da ideologia. Conservadores não se nutrem de um determinado sistema de ideias, e sim de fontes de orientação históricas, como os costumes, as convenções, a religião, a sabedoria dos mais velhos, as tradições etc. Ou seja, se você se referir negativamente a uma pessoa de “direita” como alguém “sem ideologia”, saiba que, na verdade, você está a elogiando, pois seu posicionamento político é justamente ser contra ideologias. Entendendo ideologias como sistemas artificiais de ideias formuladas para se chegar a um determinado fim, e não para entender a estrutura da realidade (que é extremamente complexa).

Se você é de esquerda, tem uma ideologia, e acha que um direitista é “alienado”, saiba que, se este direitista conhecer as ideias que defende, talvez ele lhe considere o “alienado” da história, justamente por você ser muito “letrado” em ideias que fogem do mundo real. Esquerdistas acham que se as pessoas conhecerem suas belas ideias, o mundo será um lugar melhor, mas o que vemos é que, com muita frequência, pessoas apolíticas são bastante engajadas cuidando de suas famílias, servindo suas comunidades, trabalhando, estudando e concentrando suas energias, de forma geral, na manutenção da ordem em seus pequenos raios de atuação. Enquanto isso, os “progressistas” falam muito e fazem pouco. Costumam ser pessoas boas e idealistas, mas ficam muito concentradas no campo das ideias, desejando um mundo melhor pela via política, e não por seus empreendimentos individuais.

O que é melhor? Uma pessoa “apolítica” que tenta ter uma vida em ordem ou uma pessoa “politizada” com uma vida caótica querendo salvar o mundo? Esta é uma bifurcação que, ao ser pensada, possivelmente lhe definirá como alguém de “esquerda” ou “direita”. Você já percebeu como esquerdistas costumam ser adversos à caridade e ao trabalho voluntário? Esta característica nos ajuda a enxergar melhor o cenário. Grupos que praticam a caridade – geralmente ligados a igrejas, centros espíritas etc – costumam ser compostos por pessoas que não são muito “politizadas”, mas têm um grande coração e tentam melhorar suas comunidades, enquanto os “politizados” declaram para todos os lados o “amor” que sentem pela humanidade mas não movem um músculo para realmente ajudar alguém necessitado. Fatalmente o segundo grupo alcançará o poder político (de tanto tentar) enquanto o primeiro grupo continuará servindo a comunidade sem saber que, aos poucos, pode estar sob o controle do segundo grupo.

Se você for uma pessoa “prática” que quer liberdade para exercer seus valores e ampliar suas liberdades, eu entendo o fato de você não gostar muito de política, mas tente reavaliar a situação, talvez não seja interessante para a sua vida ficar à mercê de pessoas que falam muito e fazem pouco, afinal, se você não se envolver, provavelmente elas estarão no poder e, uma vez no poder, elas podem lhe atrapalhar muito. Mas se você for do tipo “politizado” que acha que detém a “verdade iluminada” enquanto os outros não passam de “brinquedinhos da burguesia”, lembre-se que, possivelmente, você pode ser o “brinquedinho”, e o cara sem ideologia ao lado é justamente o indivíduo livre que você dificilmente se tornará. Ser “apolítico” é um posicionamento político. Um posicionamento político que diz não às ideologias. Esta é uma das ideias centrais de Russell Kirk, um dos maiores escritores políticos do Século XX, considere conhecer sua obra.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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Registros de armas de fogo disparam enquanto homicídios despencam

Segundo a Polícia Federal, 44.181 armas de fogo foram registradas no Brasil em 2019, um aumento de 23,5% em relação a 2018. Facilitar o acesso a armas de fogo foi uma das principais promessas do atual presidente Jair Bolsonaro, que em seu primeiro mês de mandato assinou uma medida provisória visando este fim. O número de armas registradas é o maior desde 1997.

Os números de crescimento no registro de armas se apresentam após anos de um acalorado debate acerca do tema. De um lado da sociedade, aqueles que acreditam que o Estado deve desarmar a população, sendo o único agente sob controle legal de tais artigos. Enquanto que do outro lado, alega-se que políticas de desarmamento não funcionam, uma vez que os criminosos não respeitam a legislação e não se sentem intimidados pelo Estado, transitando livremente com seus arsenais enquanto o cidadão comum nada pode fazer, ficando completamente vulnerável aos infratores.

Outra alegação daqueles que se posicionam a favor do desarmamento é que o brasileiro não é “preparado” para manusear armas de fogo, fazendo com que a facilitação do acesso trouxesse um cenário de caos à segurança pública, o que faria com que os homicídios disparassem. Tal hipótese tem se apresentado inválida.

Com recordes nos registros de armas de fogo, 2019 também tem sido um ano de brutal queda nos números da criminalidade, em especial dos homícidios, que caíram em mais de 20% em relação ao ano anterior. Em alguns estados, como o Ceará, os números são ainda mais impressionantes, quedas que chegam a mais de 50%. Diferente do que os desarmamentistas alegavam, um acesso mais facilitado às armas deixou o país mais seguro, por mais paradoxal que isto possa parecer.

Mas se há mais armas, por que não há mais mortes?

A resposta para esta pergunta não é simples, pois são vários os fatores que podem influenciar na queda dos índices de criminalidade, e nem poderíamos garantir que há uma correlação direta entre aumento na posse de armas e queda nos homicídios. Porém é evidente que algo aconteceu durante o ano de 2019, e certamente a facilitação do acesso às armas tem algo a ver com isso.

Em uma sociedade desarmada, os criminosos se sentem muito mais seguros ao colocar em prática seus planos envolvendo assaltos, sequestros, estupros etc. Eles sabem que as vítimas muito dificilmente estarão portando algum artigo de defesa, como também sabem que a polícia não tem os meios capazes de atender uma ocorrência a tempo de evitar suas ações. Tudo fica mais fácil, sob uma ótica estritamente econômica, o crime passa a valer à pena.

O mesmo não acontece em uma sociedade em que o acesso a armas de fogo é não só facilitado, mas até encorajado (como o atual presidente faz). Neste cenário o trabalho dos criminosos fica muito mais incerto. Nunca se sabe quem poderá interferir em uma ação e “bancar o herói”. O risco para se cometer um delito aumenta exponencialmente, é preciso pensar duas ou três vezes antes de sacar uma arma ou cometer um assalto.

Os números da segurança pública brasileira vêm incomodando os “intelectuais”, uma vez que suas belas “ideias de campus universitários” não condizem com a realidade, enquanto que as demandas do homem comum parecem fazer mais sentido. Mas independente dos números, devemos sempre lembrar que se defender (e ter os meios para tal) é um direito natural e constitucional, e está intimamente ligado à liberdade e à segurança de um povo. 2020 será mais um ano em que colocaremos à prova a validade dos argumentos de cada um dos lados do debate.


LEONARDO FERREIRA
Editor-chefe
Graduado em Ciências Econômicas e Comércio Exterior pela Universidade de Fortaleza
Fundador e Conselheiro do Clube Atlas


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